A LITERATURA DE GOA EM LÍNGUA PORTUGUESA E O SIGNO DA IRA

 

Regina Célia Fortuna do Vale - USP

 

 

Esta comunicação tem como ponto de partida a dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em maio de 1999.

A seguir faremos uma breve exposição sobre a situação histórico-social de Goa.

A conquista definitiva de Goa foi realizada por Afonso de Albuquerque em novembro de l5l0.

O domínio português sobre Goa estendeu-se por quatro séculos e meio, até l8 de dezembro de l961, quando se dá a invasão da cidade pelo exército da União Indiana, e Goa incorpora-se à Índia. Até então, a língua portuguesa era falada apenas entre as classes sociais privilegiadas (brâmanes e chardós), sendo que a grande massa da população falava o Concani, língua da população autóctone.

O processo de expansão e dominação em Goa iniciou-se de maneira insólita pois, ao mesmo tempo que o homem português se esforçava no sentido de banir as religiões e culturas nativas, ele colocava em prática uma política de integração, fato esse incomum na Europa do século XVI.

Dessa forma, ao estabelecer-se em Goa, Afonso de Albuquerque contribuiu para que os artesãos, artilheiros e soldados portugueses compusessem a população básica de europeus que, por meio de casamentos com mulheres da região tropical, se fixassem na Índia.

Essa iniciativa de Albuquerque visava propiciar a formação de núcleos estáveis, não apenas de população mas também de cilivilização luso-tropical.

O programa político de Albuquerque caracterizou-se sobretudo pela conversão do autóctone ao cristianismo, pois através de casamentos mistos assegurou a permanência do português no Oriente, favorecido inclusive pela posição estratégica de Goa que garantiu sua hegemonia no Índico.

Sob forte pressão os hindus eram coagidos à conversão, ou então exilavam-se.

O período que se segue à conquista é pontilhado por demolições de templos hindus na Ilhas de Goa. A partir daí há uma intensa substituição da organização hinduísta pelo cristianismo nas localidades circunvizinhas a Goa, onde templos hindus transformam-se em igrejas e capelas.

Os convertidos eram premiados, gozando de vantagens e regalias em detrimento dos hindus, punidos com perseguições.

As perseguições aos hindus infiéis resultavam nos batismos gerais que eram conversões em massa de grupos sociais completos. Esse método propiciava naturalmente, a esses grupos sociais a transferência integral para a sociedade cristã da sua estrutura social, com a preservação incólume do sistema de castas.

A divisão dos cristãos em castas é de remota origem hindu, embora com relação às castas hindus, apenas as grandes divisões são consideradas: brâmanes, chardós, sudras, curumbins e farazes.

A estrutura social em Goa foi mantida, transferindo-se integralmente para a sociedade cristã. Isso deu lugar a uma estrutura social bastante peculiar que, não sendo exclusivamente portuguesa, também não era hindu.

As conversões individuais, nos primeiros tempos dificilmente se realizavam pois o converso era expulso da sua comunidade, e desprezado pela própria família ficava isolado.

O sustentáculo responsável pela manutenção dos interesses portugueses no oriente foi a formação de um Estado cristão, contudo a política de missionação implantada em Goa, principalmente durante o período da Contra-Reforma foi bastante violenta.

A história da cultura literária de Goa poderá ser dividida em 3 períodos: o 1º período (l545-l821) abrange todo o espaço de tempo que vai desde a criação das escolas paroquiais em l545, até o início da imprensa periódica com a publicação da Gazeta de Goa, em 22/12/l821; o 2º período (l821-l87l) inclui a atividade literária que se estende até a criação do Instituto Vasco da Gama, em l871. O terceiro período que vai desde l871 até a presente data.

Os principais escritores em prosa – e suas respectivas obras – poderiam estar assim distribuídos:

 

1º Período

Sebastião do Rego, o Antônio Vieira Indiano.

Sermão de Santa Cruz dos Milagres e Vida do Padre José Vaz.

 

2º Período

Francisco Luis Gomes, Os Brâmanes e

Francisco João da Costa (GIP), Jacob e Dulce.

 

3º Período

Agostinho Fernandes, Bodki e

Orlando da Costa, O Signo da Ira.

 

Os escritores goeses dos séculos XVII e XVIII, eram em sua maioria sacerdotes, daí o predomínio de uma temática voltada essencialmente à religião.

Ao longo desses dois séculos delineou-se o fundamento de um feitio próprio de vida e cultura que ao caminhar paulatinamente para uma definição mais precisa, foi amadurecendo ao longo do século XIX, consolidando-se finalmente no século XX – precisamente após l9l0 quando os hindus em grande número começaram a ocupar posições de destaque na burocracia e nas profissões liberais. É o momento em que o goês católico sente-se atraído em direção às suas origens, em busca de sua identidade, a caminho da fonte essencial de sua consciência e de sua personalidade.

Em fins do século XIX destaca-se o goês Moniz Barreto, considerado segundo especialistas, o precursor da crítica literária em Portugal. Nesse momento, em Goa, o poeta Cristóvão Aires retoma a tradição indianista de João de Frias e Leonardo Pais.

Em quatro séculos aproximadamente de atividade literária em língua portuguesa, Goa produziu uma literatura emergente que abarcou quase todos os gêneros. Contudo, considerando as características peculiares desse diversificado contexto – social, cultural e religioso – a língua portuguesa e as produções literárias nela criadas sempre se mantiveram fielmente atreladas à metrópole.

O fato de não ter existido nenhuma distância de Portugal com relação à língua, poderia talvez justificar a não ocorrência, em Goa, de um falar crioulo como em outras colônias portuguesas. A par dessa situação, contudo, houve um léxico resultante da fusão do português com o Concani.

Hoje, em decorrência do total desconhecimento da língua portuguesa pelas novas gerações nativas, consideramos a relevante contribuição para a literatura de expressão portuguesa dos escritores goeses radicados no exterior, principalmente pela função que desempenham como catalisadores dos influxos do oriente e do ocidente sobre o homo goanensis.

Focalizando especificamente O Signo da Ira, consideramos que a visão de Orlando da Costa nesse romance, ao incidir sobre a ex-colônia portuguesa, não cai nos lugares comuns, distanciando-se portanto, a nosso ver, em muito, da imagem convencional e idealizada que tem sido contruída em torno do oriente.

Dessa forma, sob esse ponto de vista, o romance nos apresenta a visão honesta (e por que não dizer emotiva) do seu autor, direcionada a aspectos comuns a países em desenvolvimento como: a fome, a angústia, o amor, o crime, a exploração e a morte. Ponto de vista que não tende à folclorização da sua terra e da sua gente, não tendo nada em comum com as imagens estereotipadas de exotismo, de lascívia ou de turbulência, tão abundantes nos escritores europeus de fins do século passado que escreveram sobre essa região.

A constatação da crença veiculada pelo orientalismo, levada a efeito por Edward W. Said, que taxava o oriental como um ser irracional, infantil, moralmente depravado, “diferente” do virtuoso e maduro europeu, tido por “normal” está amplamente desmistificada nas presonagens que pululam em O Signo da Ira.

Assim , o romance de Orlando da Costa impele o leitor a um equacionamento dos problemas decorrentes do colonialismo português na Índia, ao mesmo tempo que o obriga a uma reflexão sobre a intrincada problemática relacionada à divisão em castas, sistema típico dessa sociedade.

Do conjunto de obras produzidas por escritores e poetas que se sobressaem no panorama literário goês destacamos um romance que mais nos interessou: O Signo da Ira, de Orlando da Costa (poeta e romancista).

Orlando da Costa, de etnia indiana sem mescla portuguesa, nasceu em Maputo (Moçambique) em 1929, e ainda bem pequeno retorna com os pais a Goa, onde passa toda a sua infância e vive até aos 18 anos. Embora presentemente viva em Lisboa, Orlando da Costa mantém-se sempre em contato com suas origens, visitando Goa com freqüência e nela passando algumas temporadas.

O Signo da Ira, o seu primeiro romance foi publicado em 1961 e cuja ação resumimos a seguir.

No fim do mês de novembro os curumbins vão aos arrozais. É a vangana.

Gustin e sua esposa Quitrú, aldeões, dependem de uma boa colheita de arroz, pois estão esperando uma criança e preocupados se se conseguirão sustentá-la.

Bostião e Natél desejam casar-se após a colheita do arroz.

Natél começa a sofrer uma íntima agonia, motivada por dois novos acontecimentos que ameaçam seu futuro promissor: primeiro: o avô quer que ela vá servir na casa de bab Ligôr; segundo: um soldado português (pacló) faz algumas investidas para conquistá-la. Natél sente-se temerosa, uma vez que bab Ligôr abusa das novas criadas que principiam a servir em sua casa, e que também ninguém confia nos soldados brancos que vêm de outras terras.

Outra personagem, a Coinção, se submete ao costume da terra, obrigando-se como filha mais nova que é, a manter-se solteira para cuidar do pai bêbado e da mãe doente.

O taberneiro Rumão deseja Coinção secretamente, não lhe revelando as intenções por carregar em si, sangue mestiço.

A bela e tímida Natél mostra-se dividida entre dois amores, o de Bostião e o do soldado português. Temos assim, a presença forte do amor a chocar-se contra as barreiras.

Natél e Bostião ficam oficialmente noivos, mas ela não consegue deixar de pensar no soldado.

Bab Ligôr como proprietário hereditário decadente de terras está economicamente arruinado.

Bostian (avó de Bostião) junta-se aos velhos mendigos da aldeia e prevê que a próxima colheita não será boa.

Coinção é estuprada por bab Ligôr, que usa da violência como um dos mecanismos de dominação sobre seus criados.

Após a colheita e o descasque do arroz pelos curumbins, bab Ligôr vende clandestinamente o produto no mercado negro e simulando ter sido roubado, não dá a parte que cabe aos aldeões. Famintos e desesperados os curumbins procuram em vão trabalho.

Os soldados que frequentam a tabena de Rumão descobrem que este está leproso e prendem-no.

Coinção vinga o estupro, roubando o arroz que entrega à sua gente.

Iniciando-se o período de estiagem a vida dos camponeses piora.

Natél mostra-se cada vez mais atraída pelo soldado e coloca em dúvida seu amor por Bostião.

Coinção desesperada pelas ameaças de bab Ligôr enforca-se. O pai, o bêbado Pedrú, responsabiliza Rumão pela morte da filha, e em represália denuncia-o ao comandante do exército. Conta que Rumão e um dos seus soldados envolveram-se com a venda ilícita de combustível no mercado negro.

A tensão entre a tropa os aldeões chega ao limite extremo. Para salvar o “seu” soldado e protegê-lo de um mal entendido, Natél cai em desgraça perante sua gente e não podendo mais casar-se com Bostião, abandona a aldeia para sempre...

Ao manifestar-se sobre O Signo da Ira, Óscar Lopes destacou o interesse do romance como revelação dum meio humano e o fato dessa revelação nada oferecer de recreativo ou exótico. O exótico é eliminado pela tragédia dos homens vinculados a uma terra, explorados ainda em regime feudal – que não lhes mata nem a fome de arroz nem a remota e insaciada fome de libertação. Por isso, nada, senão a ira, pode gerar-se naquele mundo fechado, que premia os velhos com uma inutilidade amarga e apresenta aos novos uma ínfima esperança, que todos os anos reverdesce com a vangana e todos os anos murcha, quando o sol começa a queimar o que resta de vivo.

Para a revelação desse meio contribui muito a maneira como se gera e de adensa a ira nos corações – duma forma lenta. Mesmo o ritmo lento da narrativa, o ritual estático de certas cenas; aquele idílio sem palavras uma certa contentação de emoções estão intencional e perfeitamente adequados ao desvendar dum meio camponês, numa fase de sub-desenvolvimento agrícola.

As personagens que mais nos tocam são as femininas. São três: Natél (a noiva), Coinção (a que acorda a sensualidade dos homens) e Quitrú (a mãe). Embora cada uma delas seja uma personagem definida o fato é que elas se completam e formam como um retrato não de mulher, mas da mulher. Portanto, o amor do universal através do particular, a comunhão com a natureza, o ritmo cheio de vagares contemplativos marcam a presença do oriente na obra de Orlando da Costa.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

DEVI, Vimala & SEABRA, Manuel de. (l97l). A Literatura Indo-Portuguesa. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar.

DIAS, Filinto Cristo (Pe.). Esboço da História da Literatura Indo-Portuguesa. Goa (Índia): Bastorá.

SAID, Edward. W. (l995). Cultura e Imperialismo. Trad. Denise Bottman, São Paulo: Cia. das Letras.

 

Glossário

 

Bab – senhor.

Curumbins, curumbinas – homens e mulheres da casta mais humilde e que se ocupam dos trabalhos pesados.

Vangana – época do plantio do arroz na estação seca.